quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Em quadros - II

“Casa de Alice” (Idem – BRA – 2007 – Chico Teixeira) – Dramaturgia cuidadosa e incomum no Brasil, aliada a um trabalho de elenco preciso, mas intenso. Mais uma vez a estrutura familiar em exposição. Se existe uma coisa altamente resistente, é a estrutura familiar; sobrevive até a perversão de afeto. Quando a estrutura não importa mais, ainda assim ela renova-se por relações inter-familiares reduzidas, mas quando se procura relações fora dela, o que perde importância atinge o esquecimento, aí a estrutura se fragmenta. O filme é cru, e com isso, construir um olhar sobre as mazelas mais que a porção de beleza que existe em relações humanas, ainda que sem a atmosfera, causa a impressão de um filme de horror. Não é que o filme não contenha beleza, e o problema não é que não prime por ela, mas é que a beleza e certa virtude que ela traz consigo, vai sendo sufocada pelo que odiamos. Mas este é um problema do filme ou um problema freqüente da realidade familiar contemporânea fora da tela, porém na tela? Não ouso torpedear um possível pessimismo no filme. Ouso provocar a profunda busca de um realismo como escora de qualidade fílmica, mas que quando a sede por beleza artificial injeta poesia no realismo, veta questões incômodas que estão na vida, e por isso o realismo, que traria questões mais valiosas para vida, vira somente um agrado a mais para a vaidade humana: o filme não atinge a vida embora extraia dela todas as suas possibilidades; o cine-egoísmo de muitas obras-primas cinematográficas, todavia irrelevantes para a vida. Deste mal “Casa de Alice” não padece, mas de outros que podem ser aperfeiçoados, e disso não se envergonha.


“Trouble every day” (Idem – FRA – 2001 – Claire Denis) – Para que o corpo, se o humano possui intelecto, vontade, sentimento, espírito? Talvez, porque nós, em dimensão física, não somos capazes de nos tocar intimamente tão facilmente pelas nossas porções metafísicas, somente (sem corpo o cinema seria o que?). Nas relações o corpo é como que o filtro de outro corpo em nossa intimidade, para que tão somente o metafísico seja o toque na mais profunda intimidade. Por isso que sexo por si mesmo precisa de amor, desejo e intelecto. Desejo, quando provém de um, corresponde a este um, mas amor faz este impulso ser para outro, ou melhor, para ambos; já o intelecto nos baliza no reconhecimento de amor e desejo como princípio e meio. Faltando amor e sanidade, mas excedendo o limite do desejo, temos a proposta do filme. É como se sem amor só houvesse o ódio, mas no filme este é impelido por um extradesejo; todas engrenagens de uma maquina humana de destruição. Sexo e morte. Daí, todo aquele que penetra na zona de intimidade de um insano, se torna vítima. Nas relações o corpo fornece inúmeros setores de proximidade da intimidade, mas há o resguardo que o desconhecimento do além corpo concede na quase totalidade das situações, caso contrário, a vida seria apenas intimidade. A insanidade do filme cega para isso, e toda forma de vestígio de intimidade vira o meio para explodir o desejo em carga máxima rompendo limites: se o desejo é o um diante do outro, o extradesejo é apenas o um, e o outro só existindo no desejo do um (por isso que nesta situação o outro só dura enquanto palco do desejo; o outro não pode pedir o um, por isso deve ser destruído). O amor quando acessa a intimidade do insano, evita os males do insano. Macabro, dirão, mas o exame mais profundo de comportamentos que se julgam corriqueiros não dirão muito diferente. Num olhar macro (e menor) pela montagem/edição do filme, numa primeira porção desfilam por fragmentação variadas relações humanas (casamento, trabalho, amizade, proteção, manutenção), nos fazendo saber do que ocorre e que algo mais ocorre; então chega uma explicação numa conversa, como que iluminando o indetectável; segue o mergulho numa estabilidade de reconhecimento de circunstância que é quase nada diante de um aprofundamento sem retorno no terrível que não podemos deter – além do intelecto, insanidade e inalcançável por qualquer vontade. Mas resta o amor.


“Chega de saudade” (Idem – BRA – 2007 – Laís Bodansky) – Filme belo, filme alegre, sensível, de olhar delicado, mas sobre algo não todo suave. Impressiona mais do que “Bicho de sete cabeças” este multiplot, dentre os quais um se destaca, por expor o desejo, a paixão e o interesse niveladores de sexos. Desejos diante de mesmas questões, provindo de qualquer sexo, apresentam fragilidades e fragilizações. Por isso niguém é melhor no que quer, mas no que é - e quem são os melhores? Importa certa beleza que há em igualdades em meio a diversidade, isso vai além de curiosidades e saudosismo. O feminino demole o feminismo, e o masculino o machismo, quando a paixão demole barreiras ideais devido à mágoas – e às vezes nem é preciso tempo. O ser humano é hábil em descaramento e em extrair de muita coisa secundária valor e alguma beleza (o que não é o caso do filme). Bravo, Laís.

domingo, 28 de setembro de 2008

O carona (The Hitchhiker)

No início dos anos noventa, talvez até antes disso, a Rede Grobo (fuc!) passava nas madrugadas de domingo (acho eu) uma série que quando era moleque me interessava, mas eu nunca consegui ver (também não lembro o porquê). Chamava-se "O carona" (The Hitchhiker). Como você deve ter percebido, saquei isso de um canto obscuro da memória, e ainda deteriorada.

Foi aí que pesquisando na net, descobri algumas informações que atiçaram mais ainda a curiosidade: foi produzida originalmente de 1983 à 1991, teve 6 temporadas; no gênero que uns dizem ser horror, outros mistério, mas é dramática, também; a série é da HBO; foi exibida com montes de cortes de conteúdo, pois continha nudez e violência explícita (a HBO já investia num tipo de série mais adulta, como que numa iniciativa que deu frutos mais recentes, como em "A família Soprano", "A escuta", etc.); e possuia um tom de séries de mãos habilidosas como Alfred Hitchcok e Rod Serling (do "Além da imaginação" - anos mais tarde, aí sim em meados dos anos 1990, a mesma HBO exibia aqui no Brasil "Perversions of Science", algo bem inspirado em "Além da Imaginação", mas não tão variado em gênero; possuia também um tom que lembrava os quadrinhos da EC Comics).

Alguém se lembra de "O Carona", e também "Perversions of Science"?

Porque faça o favor de me dizer, não acho nenhuma das duas em canto nenhum, na web ou em loja. A web, aliás, anda meio esquecida dessas séries - tá vendo como a internet não salva todas as lavouras?

O único video que achei, com propaganda antes (com os geniais Stray Cats), tem a abertura da série mais o início de um episódio de "O carona" - http://www.imdb.com/title/tt0085031/ :

http://www.youtube.com/watch?v=lzonIagnUuc

"Perversions of science" é esta - http://www.imdb.com/title/tt0118426/ :

http://www.youtube.com/watch?v=_Gp4u5vR0hk

Quem puder ajudar, ganha um lindo "muito obrigado" de último tipo. ■

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Wario no Wii

O título da postagem não é em japonês. Trata-se de uma propaganda bem legal. Quando propaganda é legal sem ser nociva, merece ser mencionada para além da argumentação de venda. Dá uma olhada:

http://www.youtube.com/experiencewii

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A cidade alicia (tentei evitar)

Image Hosted by ImageShack.us

As séries nacionais trazidas pela HBO até o momento contém cinema. Nesta crescente vertente de produção, cabem distinções, pois na variedade, parâmetros começam a surgir. Por exemplo: “Mandrake”, série intoxicada de pompa e embriagada de futilidade é demasiado produto, e o que ressalta é técnica de realizador em gerar audiovisual (ostentação para entreter); “Filhos do carnaval” é tentativa de agrado de públicos, ousou mais qualidade. E agora “Alice”.

Sim, “Alice” é produto, tem comprometimento com audiência, mas alcança outro patamar. Não é série, não é cinema, como os autores/realizadores afirmam na propaganda no canal por assinatura. Por seu primeiro episódio, a série alcança êxito dramático, técnico, de realização e tem toque autoral. Mas não é cinema de autor, primeiro porque cinema não é coisa de um, segundo porque “Alice” não é puramente cinema. Um híbrido? Talvez. Certamente, com teor de novidade para a TV.

É interessante observar no primeiro episódio, “Pela toca do coelho”, o que opera Karim Aïnouz (um dos diretores da série, junto com Sérgio Machado, Jonny Araújo e Márcia Faria. A Gullane co-produziu). Considerando seus “Madame Satã” e “O céu de Suely”, a precisão do filmar resulta em economia de tempo, mesmo na duração reduzida de episódio. O cinema de Aïnouz é de minimização presencial de trama e tira bastante proveito do tempo. Estando presente a trama, ela é desenvolvida em instantes preciosos. Entre estes, nos intervalos, que são maiores, cultiva-se cenários, desenha-se o ambiente da série, que é não o da megalópole-sociedade hostil, mas o da avalanche de possibilidades óticas, sônicas e tácteis, o da inter-relação de formas, cores, luzes e sólidos. Um labirinto onde Alice precisa se encontrar em si mais do que se localizar onde está.

Hostil é o que carregamos em nós, mas agimos como se o ambiente que mãos humanas empilharam nos induzisse a setorizar uma angústia, para usar um termo aliado à multiplicidade. Não é a poluição, a aglomeração ou o trânsito, mas o que o homem impele e vai implicar algo nele. Os que não são da megalópole, quando chegam, vão receber o impacto que aviva o que o humano traz consigo. Mas seja miséria ou virtude, conter sua expressão – ou ignora-la, entorpecendo-se – é sinalizar o local onde as construções devem desabar. Logo, importa é o que decidimos ser em meio à hiperatividade e ao incessante; este ambiente fica opressivo quando não se corresponde ao ritmo do que a concentração de humanidade estipulou em seu entorno; ritmo simplesmente pede definição, no caso, de nós mesmos devemos ser. O que ritmo megaurbano cobra, se não receber, concede a paga da hipocrisia. Pela intensidade, o que a megalópole faz no homem vem desavisado, e Alice é pega sem aviso.

Num táxi, indo ao aeroporto para que possa retornar a Palmas, a megalópole envolve Alice para expor quem/o que ela é/detém. Primeiro o trânsito, e a dor da ausência do pai ferve. Alice quer ar, mas a tecnologia no carro está fora de operação. Alice abre o vidro, e para quem vive na megalópole extradiegética, acostumado ao que vê como indício da hostilidade metropolitana na forma do assalto, é pego de surpresa com a negação do fatalismo que se supõe companheiro de todas as horas. Quem executa a virada na vida de Alice é ela mesma se deixando envolver pela demanda da cidade, não é um assalto ou uma enchente que faria isso; Alice tampouco se conforma à ambulância e ao táxi. A livre-escolha humana, ou arbítrio, quer se conceba livre ou não, está em ação, e no primeiro episódio tem muita relevância. A avalanche humana em dados momentos chega antes que o tsunami do mundo. Realismo consciente.

Tendo mergulhado na cidade para atravessar a noite e para perder-se, só chegando o dia Alice pode encontrar seu caminho. Mas há uma bipolaridade disponível a Alice: não tendo lar em São Paulo, e não podendo acessar o lar de alguém, só lhe resta acessar o trabalho de alguém, visto que também não possui trabalho seu para servir de refúgio - São Paulo em sua forte prisão. Alice procura o brechó que pertence à tia numa galeria paulistana. No trajeto diz a si mesma não se arrepender dos atos noturnos, um deles, uma traição; “Não sinto culpa.”, ela diz, exultante, resoluta. Adentra então a galeria, procurando o Brechó Christiania; seu encontro com ele se dá num plano em que uma coluna oculta parte do nome na fachada do estabelecimento, resultando na leitura do termo como “Christi”. Ali se encontra a tia. Na troca de palavras, escapa uma breve dor num “me ajuda”, de menor intensidade a exultação anterior.

Não sabemos ainda se Alice será uma personagem que exibe uma imagem de si para o mundo e por trás dela existirá a Alice genuína, uma personagem que se resguardará em sua descoberta. Mas a interpretação da cidade em “Alice” já cede sinais de que o que a megalópole ergue do íntimo humano, vai criando camadas até o âmago, onde quem somos na verdade está. Embora não pareça, o ser humano é mais forte que a cidade. Por isso, olhos atentos não apenas as camadas banais, mas aos detalhes que pulsarão em menor destaque. De ambos se produz o que as séries da HBO alegam ser, dramáticas. Isso pede olhos não só para entretenimento. Ótimo. ■

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Nada de estrelas ou desenhozinhos. Aprovação: 77,9%

Se você não é assinante do canal, pode assistir ao primeiro episódio aqui:
http://www.alice-hbo.tv

Datas e horários de exibição dos episódios nos canais HBO:
http://www.hbo-br.tv/sinopsis.asp?ser=134&prog=HBE185052

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A fúria e a razão de Moore

"Acho que o cinema na sua forma atual é muito prepotente. Ele nos dá comida na boca, o que dilui nossa imaginação cultural coletiva. É como se fôssemos passarinhos recém-saídos dos ovos olhando pra cima, com nossas bocas bem abertas, esperando que Hollywood nos alimente com um vômito de vermes. O filme de Watchmen parece mais vômito de vermes. Eu, pelo menos, cansei de vermes."

"Há três ou quatro empresas agora que existem somente para criar não quadrinhos, mas storyboards para filmes. Pode-se dizer que a única razão pela qual a indústria dos quadrinhos ainda existe é essa, para criar personagens para filmes, jogos de tabuleiro e outras mercadorias. Os quadrinhos são uma espécie de horta onde crescem franquias que podem ser rentáveis para a indústria cinematográfica debilitada".

Alan Moore, quadrinista, autor de HQS como "V de vingança", "Watchman", "Miracleman", "Do inferno", "A liga extraordinária" e trabalhos emblemáticos com personagens das majors norte-americana, como Monstro do Pântano e Batman.

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Moore tem razão no que diz, mas em parte.

Certamente Moore fala de uma parcela do cinema, a qual consome, e tem razão no que diz. A parcela do cinema em questão é aquela vereda preferencial do cinema de entretenimento: contar uma boa estória. Isto corresponde a roteiros com tramas e subtramas criativas, personagens que não vão muito a fundo em questões existenciais (para não exigir demais da humanidade que deseja apenas se ver no lugar dos persoangens em situações seguras para o físico, mas que pelo sonho são ousadas), clímax preciso e intenso, imagens que dentro de um padrão de verossimilhança sejam maravilhosas (daí a sede por efeitos especiais), áudio que seja cativante e envolvente. Se pegarmos na literatura os contos de horror, serão aqueles que primam pela atmosfera, e por isso trata-se de uma arte de envolver o leitor numa teia de imaginação em que o sobrenatural espreita na forma de horrores primevos; é uma arte da descrição e sustentação climática por parte dos autores - por isso Edgar Alan Poe e H. P. Lovecraft. Esta é o tipo de arte preferido das grandes produções Holywoodianas. O problema é que a indústria do entrtenimento fez disso produção em massa, e esterelizou a potencia da arte: a arte precisa ser consumida rápido para se consumir mais dela. Eis a razão de Moore.

No que ele erra é sobre a grande produção cinemotográfica mundial (e que Holywood também produz, diga-se), que prima por ser relevante. É arte, mas não necessariamente filme de arte (que pra muita gente doutrinada no catecismo da indústria é o filme chato, por exigir mais da humanidade do espectador). Corresponde ao cinema que se esmera em ser boa experiência, não apenas boa estória, e traz consigo uma gama de artifícios que concede ao espectador visões para e sobre a vida, através de esmero narrativo, alegorias, gramática e sintaxe fílmica, beleza funcional, interferência na vida, incremento humano, e muito, muito mais, inclusive os artifícios usados pela indústria de entretenimento - cada filme tem um valor único e valores subjacentes a serem descobertos. No citado exemplo da literatura de horror, os contos fantásticos, góticos ou não, que funcionam como crítica, filosofia, arte, emblema de época; vale tudo em nome das intenções autorais - por isso Oscar Wilde, William Beckford, Jorge Luis Borges. O problema é que certos autores, gênios até, às vezes são dotados de pompa em demasia. Moore generalizou.

Três ou quatro editoras são notadamente fábrica de idéias para o esgotamento criativo da indústria de entretenimento. Outra generalização. Existe muita HQ na atualidade sendo feita desconsiderando a via para o cinema, tanto é que trata de temas que não se enquadram no Parental Guidance da indústria. Moore parece estar esquecido de que HQ é uma arte tão sequêncial quanto o cinema, e tem proximidade com o cinema: uma estrada atravessa duas cidades.

A prepotência, em princípio, não está na arte, mas no mercado, no entretenimento que só quer consumir mais dele mesmo. A arte usa de artifícios no jogo de manter espectadores/leitores diante de si na contemplação benéfica à humanidade. Ela manipula e pede manipulação dentro dum período em que vigora o lúdico, mas cede de si um retorno a quem lida com ela.

Até certo ponto não há ser humano na face da Terra livre de um mísero traço tirânico. Terrível constatação?

Um exemplo é a declaração de Moore, que pela generalização, impõe a quem a medida de sua diatribe é injusta.■

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O apreço pela desordem


“Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci – BRA – 2006

http://www.imdb.com/title/tt0922605

Fugere urben! Lá no bucólico e pelo naturalismo, onde o homem pode ser puro e a civilização não o alcança, haverá maior realização e o homem maculado será mais íntegro no que perdeu.

Não.

A civilização é uma cicatriz eterna enquanto dure o homem, e ela destrói qualquer possibilidade de pureza, apenas pela sua atmosfera, mesmo quando encontra os que nasceram distante dela.

É a respeito de Carapiru a estória e a história. Carapiru é a pessoa-protagonista. Aquele que muitos ainda hoje ousam não considerar pessoa, exatamente os mesmos que intentaram enxotar Carapiru da vida, para posteriormente o cinema acolher (controle), pois o cinema não tem poder de salvar; o cinema não redime a existência – embora traga consigo muitos apontamentos do caminho.

Escurraçado da vida Carapiru recusa ser. Vai existir no exílio, no medo – fosse este impregnado de civilização, seria no ódio, na revolta, mas o mistério da docilidade reside nele – em uma década de solidão humana, mas não existencial, visto que a floresta é existência e cosmo.

No entanto, há muito o cosmo já não é mais certeza de afeto. O cosmo é força ou coisa. No cosmo, o afeto que se apresenta mais disponível, é no humano – mas no que está impregnado de civilização; o afeto coabita com a civilização.

Carapiru encontra satisfação no afeto, mas a civilidade, ainda que parcial, reinventa o vivo-protagonista segundo suas lógicas de controle. A civilização pode corromper o afeto: afeto entre gente e bicho de estimação.

Surge o INCRA, mas o afeto civilizado familiar o resiste (controles). A FUNAI vem corrigir o desvio de afeto lançando o indígena na intensa civilização (controle). Carapiru existe, desde seu reencontro com a humanidade, fora de qualquer esfera de controle?

Existe enquanto enigma a ser decifrado, e depois que o decifram, pela redescoberta do possível afeto familiar original, ele é devolvido ao controle original de etnia. Mas a degradação está em todo lugar, da mata à civilização, sempre provocado pelo controle. Já é mito o indígena livre, ele cada vez mais é o civilization junkie.

Há um idioma que o Carapiru da nossa contemporaneidade fala que intérprete algum hoje é hábil na compreensão. Nem de sua etnia, sua nacionalidade ou sua moral. É no mistério do que fala a quem não lhe entende que Carapiru pode ser isento de controle, e finalmente livre.■

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Nada de estrelas ou desenhozinhos. Aprovação: 98,8%

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Encarnação de um gênio

Preconceituosos, cineposers, guardiões do bom gosto, hipócritas culturais, o mercado que faz esforço pra ser pop, o povão que imagina usar os próprios miolos (mas pensa com os miolos de grandes publicações nacionais, tipo VEJA), os autoelitizados, os cine-hedonistas, os puristas, os cegos-surdos, os vegetativos, os objetos inanimados e os sem acesso ao cinema podem até dizer que não gostaram do filme, mas dizer que o filme é ruim, heh, meu filho, teu conceito de cinema é esquisito; aliás ele é que é thrash.

A entrada em circuito nacional de "Encarnação do demônio" (BRA - 2008 - José Mojica Marins) deveria ser ponto facultativo nacional.

Gracejos feito "Mais do que você imagina", "O grande Dave", "A múmia 3", "Era uma vez...", "Hancock", "A caçada", "Viagem ao centro da terra", "Arquivo X", ou até "Batman", de certo modo não deveriam ser maior preferência de público brasileiro, que se avança numas coisas, no que tange a preferência de entretenimento cinematográfico retrocede ou estaciona no tempo. Reclamam de cinema brasileiro ser expressão cultural da mesmice sociológica, regionalista, elitista, noveleira global. O cinema brasileiro atual é pouco diversificado em gênero, e quando envereda por gênero é comum ser fraco. Mojica sempre foi e novamente é o oposto disso.

Qualquer atividade comercial sem demanda pára. Brasileiro que gosta de cinema e vive enojado pelo nacional, meta na cabeça que se não se faz filme que você procura por estas paragens, não é só devido a interesses exclusivamente comercias de classe cinematográfica dominante, internacional e nacional, ou por um setor que você julga arrogante apenas por ter mais repertório educativo e cultural que você. Não transfira sua culpa: as oportunidades de reverter certas situações existem, e você quando prestigia é que põe a máquina em movimento.

Do contrário sua estultícia informa que você de fato é um dominado que imagina ser livre, um manipulado por marketings, propagandas e comunicações estratégicas que definem sua preferência. Mas porque você cede, não porque as práticas são fazedoras de zumbis; você se deixa fazer. Por isso que dar crédito a paranóia de mensagens subliminares que dominam sociedades é panaquice: isso é só medo e a responsabilidade que você tem de se manter livre tomando forma, é sua culpa sendo transferida pra uma lenda paranóica; você só não será ridicularizado pelos que procedem como você. VOCÊÊÊ!

Crítica: http://www.revistacinetica.com.br/encarnacaododemonio.htm

Nada de estrelas ou deseinhos. Aprovação: 83,4%
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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Que Youtube, o que.

O Veoh fechou para o Brasil. O Youtube, embora tenha a maior audiência, tem limitação que atrapalha. O Google video não é lá essas coisas.

Precisa postar seus vídeos na internet, mas não encontra sites que ofereçam suporte para HD e CODECs mais recentes, como H264? Experimente os sites da lista abaixo:

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1- http://www.gamevideos.com

Gamevideos - Tamanho máximo de arquivo: 100MB. Formatos: .AVI, .WMV, .MPG, .FLV e .MOV.


2- http://videolog.uol.com.br

O Videolog aceita vídeos de até 200MB, mas com uma conta PRO libera HD e tamanho de até 400MB. Com exceção do Real Vídeo, quase todos os formatos são aceitos; avi, flv, mpeg, mp4, wmv, dentre outros. Não divulgam informação sobre CODECs.


3- http://users.gametrailers.com/usermoviesubmit.php

Arquivos até 200 Mb. O tempo de compressão dos arquivos após a subida é de 1 minuto por megabyte.


4- http://www.vimeo.com

No Vimeo, depois de registrado, recebe-se um limite de 500 MB por semana (limite de armazenamento: 1 video de 500 Mb, 5 de 100 Mb, etc.). Fomatos: asf, asx, avi, divx, dv, dvx, m4v, mov, mp4, mpeg, mpg, qt, wmv, 3g2, 3gp, 3ivx and 3vx.


5- http://www.motionbox.com

Duração maxima dos videos no Motionbox é de aproximadamente 30 min de video. O site visa vídeos familiares, mas se você decidir fazer um curta para sua tia, quem reclama? Recebe-se 300 Mb para armazenamentos, ferramentas de edição, e possibilidade de criação de DVDs e flipbooks. Pode-se optar por conta Premium, que é sem restrição de tamanho e duração, sem propaganda, com formatos HD, player em fullscreen e download de copias do vídeo em alta qualidade para amigos.


6- http://www.viddler.com

Até 500 Mb por video. Formatos: avi .dv .mov .qt .mpg .mpg2 .mpeg2 .mpeg4 .mp4 .3gp .3g2 .asf .wmv .flv.


7- http://www.dailymotion.com/br

Duração máxima de 20 min, limitados em 150 Mb e resoluções de 640 x 480 ou 320 x 240 px. Para um vídeo de 5MB com conexão ADSL 512, o envio conclui em ao menos 5 minutos. Há limitações de conteúdo: violência, racismo, propriedade intelectual, pornografia emanifestações de ódio.


8- http://www.nelsok.com/premium

Diferentes pacotes variam a resolução, o tamanho e o CODEC. O gratuito é para videos com 470 x 370 px, 200 Mb e flv2 (embora o site diz suportar avi, flv, mpg, mpeg, mov, mp4, mpe, wmv, 3gp, mov).


9- http://www.smugmug.com/

É pago. O custo anual é de 149,95 doletas para o plano Professional - qualidade HD.


10- http://blip.tv/

Aceita-se videos até 1 Gb, MAS é recomendado até 100 Mb, por inúmeras razões, dentre as quais pepinos na hora do transcoding para Flash, como ELES DIZEM. Aí vem o papinho: "Pode ser mandado em qualquer formato, mas preferimos .mov e .wmv, comprimidos. Por favor não nos envie DV e MPEG-2 descomprimidos.". Ou seja: Tá preso, mas tá solto. É de graça, mas pagando $96,00 por 14 meses consegue-se benefícios da pro account http://www.blip.tv/faq/pro/ .


11- http://www.revver.com/

"Nós não temos um limite de compressão de vídeo contanto que seu arquivo esteja abaixo de 100MB". Formatos: MOV, MPEG, MPG, MP4, WMV, ASF, AVI (incluindo DIVX). Os videos devem ter no mínimo 4 segundos, por conta da propaganda.


12- http://br.video.yahoo.com

"Seu vídeo precisa ter menos de 150 MB e deve estar em formato WMV, ASF, QT, MOD, MOV, MPG, 3GP, 3GP2 ou AVI, além de possuir áudio."


13- http://www.movedigital.com/

30 dias grátis com 1 Gb de armazenamento e 10 Gb de bandwitch. Quando pago, é bem pago: http://www.movedigital.com/mover/choosePlan , mas oferece grande armazenamento e uma série de outra facilidades que o distingue dos demais, como HD, múltiplas ferramentas de conversão para múltiplos formatos (RSS, iTunes, Mobile, Flash e BitTorrent). Formatos aceitos: MPG, AVI, MOV, WMV, 3GP, DIVX, etc. (video); ZIP, EXE, RAR, DMG, SIT, BIN, TAR, GZ, etc. (jogos e softwares); PDF, DOC, PostScript, etc. (documentos); MP3, WAV, WMA, etc. (música); ISO (imagem de CD); JPG, BMP, GIF, PNG, etc. (fotografias e ilustrações); SWF (Flash); e-books.


14- http://www.videocommunity.com

Nos primeiros 30 dias é grátis, depois parece rolar uns tostões. Não consegui mais informações.

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Lembrando que existem processadores de computador que ainda não reproduzem video HD. Deu uma gaguejada, já sabe.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Cinema digital (Parte 2) – Subida de categoria?

Em cinema, imagens possuem um indicador de relação de contraste, o dynamic range. Trata-se de um registro de informações de detalhes em altas e baixas luzes na cena. No vídeo digital de alta-definição (HDV), candidatado a substituto da película, geralmente a relação de contraste é de 500 para 1 (500:1). O filme negativo colorido, a amada película, tem relação de 1.000.000:1. Em suma: 1.000.000 de tonalidades em cena? O HDV vai captar apenas 5% disso, ou seja, menor capacidade de registro de detalhes na imagem, forçando a fotografia a fazer opções motivada por restrição.

Antes que você se apresse em descartar o HDV de uma vez de sua preferência estética, é bom ter cuidado. Primeiro porque as informações acima citadas foram extraídas de um documento de 28/4/2005, o “The future of HDTV is film”, publicado pela Kodak, uma das maiores, se não a maior interessada em que o registro da câmera de cinema continue sendo em negativo. Depois porque a tecnologia digital dá passos largos para alcançar a defasagem citada e outras mais em relação à película, e com muita certeza disso se dar sem abrir mão das vantagens que o formato possui hoje. Dentre elas, sem dúvida, a eliminação de negativo. Valores de tabela:

° Lata de negativo 35 mm, Kodak Vision3 (5219) com 4 minutos de duração: R$ 580,00 a unidade, mais R$ 288,00 para a revelação – Um longa metragem não costuma ultrapassar 120 minutos, no entanto, as horas de filmagem excedem a duração de um longa-metragem. “Olga”, de Jayme Monjardim teve 12 horas de filmagem; “Xuxa gêmeas”, dirigido por Jorge Fernando, 90 horas de filmagem; “Entreatos”, de João Moreira Salles, 170 horas. Um filme em 35 mm, com 50 horas de filmagem, consome 750 latas, ou seja, R$ 651.000,00 - incluída a revelação.

° Lata de negativo 16 mm, Kodak Vision3 (7219): R$ 325,00 a unidade, mais R$ 288,00 para a revelação – Para o mesmo caso do exemplo anterior, mas para 16 mm, o valor é R$ 459.750,00 - incluída a revelação.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Cinema digital (Parte 1) – Digital já? Não; já, já.



Divergentes opiniões se manifestam em duas instâncias do cinema a respeito da quiçá vindoura hegemonia digital.

Numa delas, a de projeção, há partidários do digital por baratear e facilitar a distribuição. Já os discordantes dizem que, em primeiro lugar, a coisa não é bem projeção, e depois, que o resultado não é satisfatório; perde-se em cor, luminosidade, contraste, enfim, detalhamento de imagem. Dos dois lados encontram-se técnicos, distribuidores, exibidores, espectadores, produtores e profissionais.

A outra instância corresponde a da produção e da realização. Concordantes falam de barateamento sem perda de qualidade, facilidade de distribuição e exibição. Porém, quem é contra diz que o digital ainda está aquém de oferecer o que a película permite. Encontram-se tais posturas nas mesmas pessoas da instância anterior, mas quem parece se condoer mais pelo porvir que afetará a instância, são profissionais e espectadores. Cinema, para o profissional e o espectador consciente (de olho e mente atentos para não ser presa de interesses que tratam pessoas como ponto de venda), não é só uma estória bem contada para entreter em tempo vago.

Implanta-se o digital? Mantenha-se a película?

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Em quadros - I











Assisti ao “A aventura (L’avventura – 1960 – ITA/FRA)” do Antonioni. Filmão. Vai para o trono.

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Nunca tinha visto nada do Ken Loach, mas muito ouvi falar. Me despojei da opinião alheia no que diz respeito ao cara e comecei a tomar contato com o cinema dele. “Mundo livre (It’s a free world... – ING/ITA/ESP/ALE/POL – 2007)” é posudo, sonífero, esquemático, reflete uma relevância artificial da vida e quem paga pecados nos assistencialismos da vida ou é ativistinha político deve amar. Se não amam, o Loach é mesmo muito fraco, pois nem os públicos imediatos dele engolem o que o inglês gerou. Nisso, não adianta, quem acha o filme espetacular viu onde não existe, prevalecendo gosto duvidoso, não a certeza do que há no filme. Talvez eu dê mais algumas chances a Loach (por enquanto duas. No máximo). Volto às opiniões que deixei temporariamente de lado, já achando que vou preferi-las.

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“Eles vivem (They live – 1988 – EUA)” do John Carpenter é um filme um tanto incompreendido por um grupo: os conspiracionistas cryptonerds, que não assumem seu medo do que os olhos não alcançam, e que possuem a mania de associar qualquer coisa com o assunto que suspeitam uma conspiração por trás – aí um dado menor, de descabida associação, se transforma em informação e logo é tornada prova da existência da trama oculta. O filme de Carpenter virou um tipo de guia da subliminaridade social (até a classificação é absurda – subliminar pede inconsciência, e não estar despercebido da existência de algo passado numa comunicação), e a incompreensão citada desvalorizou o filme e reduziu sua importância para um grande público. Mas achar que o filme é importante para o público maior não é ver importância em algo menor com os criptonerds fazem? Não. Mais importante do que supostos subterfúgios acoplados na proposta de venda e do que alojar interesses de alguns em muitos, muitas comunicações são tirânicas no trato de seu público. A questão no filme de Carpenter não é a denúncia, mas a limitação ocular diante dos fatos. É preciso não apenas a capacitação da consciência sã para compreender a realidade, mas o esforço conjunto de outras consciências, já conhecedoras do que se ignora coletivamente. A transformação dessa realidade pode passar por movimentos políticos, rebeldia, inconformismo, sede de justiça, mas o que a efetua são medidas corajosas, desesperadas, trágicas, extremas, das quais não se sobrevive para ensinar as próximas gerações.

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François Ozon é competente. Por isso uns já se apressaram a se apropriar dele como medalhão do cinema gay. Faça o favor, os idealizadores e realizadores é que são coisa? Cinema tem sexo, tem raça, tem credo? Se tiver o nome não é cinema, é propaganda – e chata pacas, porque tenta convencer em muito mais tempo do que 30 segundos. “Swimming pool – à beira da piscina (Swimming pool – 2003 – FRA/ING)” é legal, mas ainda não dá pra ver toda a competência de Ozon além da técnica formal e da paixão que ele tem por cinema. Não penso que daria um filme grandioso, pois a estória traz no bojo a contenção em patamares inferiores. Isso nem sempre é problema. Técnica não é tudo e Ozon ficou contido nela; ficou também limitado ao seu prazer de filmar.

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quarta-feira, 12 de março de 2008

Metallica - Whiskey in the jar (music video)

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Thin Lizzy - Whiskey In The Jar

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Whiskey In The Jar - The Dubliners (Live)

As I was a goin' over the far famed Kerry mountains
I met with captain Farrell and his money he was counting
I first produced my pistol and I then produced my rapier
Saying "Stand and deliver" for he were a bold deceiver

(Chorus)
Mush-a ring dum-a do dum-a da
Wack fall the daddy-o, wack fall the daddy-o
There's whiskey in the jar

I counted out his money and it made a pretty penny
I put it in me pocket and I took it home to Jenny
She sighed and she swore that she never would deceive me
But the devil take the women for they never can be easy

(Chorus)

I went up to my chamber, all for to take a slumber
I dreamt of gold and jewels and for sure 't was no wonder
But Jenny blew me charges and she filled them up with water
Then sent for captain Farrell to be ready for the slaughter

(Chorus)

And 't was early in the morning, just before I rose to travel
Up comes a band of footmen and likewise captain Farrell
I first produced me pistol for she stole away me rapier
I couldn't shoot the water, so a prisoner I was taken

(Chorus)

There's some take delight in the carriages a rolling
and others take delight in the hurling and the bowling
but I take delight in the juice of the barley
and courting pretty fair maids in the morning bright and early

(Chorus)

And if anyone can aid me 't is my brother in the army
If I can find his station in Cork or in Killarney
And if he'll go with me, we'll go rovin' through Killkenney
And I'm sure he'll treat me better than my own a-sporting Jenny

(Chorus 2x)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Você tem sede de que?

Por conta dessa matéria http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/080201/mundo/eua_pedofilia_igreja , alguém já bradou na internet que é estranho o ocultamente de imagem e nome do criminoso. Por que?

Deve-se sempre punir o criminoso independente de instituição. Só que não tem sido praxe vigorar a punição ao crime se, absurdamente, ele se atrela a imagem de instituições. Não há novidade nisso, mas atualmente se extrapola, e é engano pensar que isso só se dá relacionado a instituições religiosas. O Brasil é exemplo: acontece em instituições privadas, não-governamentais, governamentais, mas sem parecer generalizante (como alguns ainda gostam de pensar) redes de TV, política, personalidades, e a lista se estende, não infinitamente.

A omissão de informações provoca um efeito colateral sério, dada à velocidade e a multiplicidade de canais de informação. Mas é engano pensar que o pior é omitir a imagem dos criminosos, pois acontece pior: omite-se o desfecho dos casos; omite-se a punição.

Só que a situação ainda se agrava: por exemplo, aqui no Brasil (falo do que vejo, mas se sabe que a questão não é local), pra muita gente, tem se confundido justiça com vingança; reina uma sede de sangue, até mesmo em casos parcialmente apurados - o povo aprendeu a reagir, mas agir que é bom, e agir certo que é o necessário, não.

Que conseqüências, então, tem a simples revelação da imagem de um criminoso? As mais desoladoras que o tempo presente pode conceber, infelizmente.

Se de um lado se acoberta criminosos, do outro, o nosso, não é surpresa abandonar a justiça, e ficamos assim há um passo de terminar de degradar um quadro já complicado. Criminosos, nesse caso, se procedermos sem cuidado, através de um ódio justificável para alguns, seremos nós. Para nós mesmos, e mais até de do que quem cometeu ato criminoso intencionalmente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ultraseven X

Às vezes se deseja algo simples, algo que não peça muita inteligência. É nessas horas que percebemos o quão tirano pode ser um mero entretenimento; quando ele nos subestima; ele se eleva acima de nós, e abusando, faz de tudo pra nos prender a algo que sabemos bobo. Aí a gente cai em si e lembra que coisas é que devem ser subjugadas, e não o contrário. Munido dessa certeza, então, tentamos de novo, e com coisas que acéfalas se apresentam, para elas nos fazemos presa fácil de novo. Em resumo: há prazer ao cair numa armadilha, desde que percebamos um fio de interesse nela. Em síntese: revirando o baú da memória infantil pela web, vê-se que os brinquedos de outrora nesse século, ganham roupagem nova, te interessam, e brincam com você. E não é que o negócio vai ficando legal? Raios!

Ultraseven X é isso: chupado de tudo que fez sucesso (inclusive ele mesmo), apostando em dar um upgrade em seu público com coisas mais relevantes (quase adultas), trazendo elementos que são marca das séries, como heroísmos contra um invasor, produção até certo ponto elaborada, tramas curiosas e narrativa honesta, e o sempre esforço em realizar efeitos visuais tão caprichados quanto se possa. Enfim, uma bosta, mas você gosta - se fizer ressalvas. O primeiro episódio é basicão, o segundo melhora. Só não é recomendável uso prolongado; é capaz de bater um arrependimento.

Os episódios são no Veoh e tem qualidade pra ver em tela cheia. Legendas em espanhol.

Ultraseven X - ep. 02

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Credo

“A crença consiste na aceitação das afirmações da alma; a descrença em sua negação.” (Emmerson).

Me diga uma coisa: o teu credo é negar o meu? Sinto, mas então teu credo é negar teu semelhante.

Não me vê como teu semelhante? Então que espécie de negação é a tua? Pois a diferença que você estabelece entre nós te faz incapaz de compreender quem sou. Tua negação é ignorante; assim não é possível negar nada.

Ou contra meu credo o teu se dá por afirmação? Se for assim, é apenas para você mesmo. Universal só aí no teu quintal onde você e os teus estão. O que afirma sobre mim (pensando ser por mim) não pode ser afirmativo, logo, não me serve. É coisa particular tua, que se genuína, em verdade não excede teus limites; é o aroma da comida, não o que se come. Brota pelo veio do impositivo, portanto não afirma; o sim precisa de concordância, a tirania precisa de oprimidos.

Dizem que meu credo me foi imposto; não foi e muito menos o impus a mim mesmo. Meu credo (que é credo de outros), se imposto, dissolve. Daí, o que passa a existir é só um politicismo aberrante que impositores-impostores utilizam em nome de desejos inescusáveis. Tão inescusáveis são os que tomam sobre si tal mentira como sendo verdade.

Há falsários que há muito tomam um credo que não é o meu, mas o chamam de um nome igual ao do meu, dizem ser o meu, e não sendo, você brada que o problema é meu credo? Chamar abacaxi de maça torna possível come-lo com casca?

Cego, olha pra você mesmo; tolo, entenda-se; soberbo, faça-se humilde. Anule-se. Quer aniquilar algo? Vá contra os que se apropriam de credos para fins pessoais malditos – como você se apropria. g

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

La brújula política

Vivemos num Brasil em que a população, em parte nada pequena, vai se despolitizando, afirmam alguns. Só que entre o desespero desses alguns, por perder influência partidária e votos da parcela significativa (merecidamente, pois muito do desinteresse nacional vem da ação política que privilegia a si mesmo e não coíbe a sangria da nação), e a chatice que o brasileiro vê em política (novamente culpa dos alguns, que sempre optaram pela estupidez nacional e tacam a educação em décimo plano, para perpetuar o voto de cabresto de maneira conceitual – megalomania por aqui não; coronelismo), fica a possibilidade de política não ser coisa babaca, e quando compreendida, ganha valor que se cogitava inexistente. Política não fica mais só como trampolim de poder, mas vira modo de por em prática ideologias (lembra?), vontade social, vigilância dos eleitos, das elites e das massas, para que todos estejam em seu devido lugar. Política vira necessidade humana.

Uma bobeira interessante; um brinquedo educativo pra marmanjo pensar “Putz, não pensava que eu fosse isso!”; um passatempo impreciso; uma ferramenta para cegar o povo ainda mais politicamente; um guia mequetrefe pra te ajudar a escolher opção do perfil do OrCUt; um termômetro de política humana parcial, que não permite você explicar melhor o que pensa, por isso dará resultado equivocado. Ou simplesmente uma coisa pra lembrar você de orientar o que pensa e como age, e pra deixar de ser ridículo antes que alguém perceba: http://www.politicalcompass.org/ (em inglês ou espanhol). Clique no “Click here and start” ou em “Haz clic aquí para empezar el test!” e depois preencha 6 páginas de teste e veja o resultado de sua inclinação política em um gráfico.

No meu caso, deu esse gráfico:

Quer dizer que sou de esquerda, que não odeio o Lula e amo o Serra (se é que há diferença abaixo da superfície de cada um)? Não, apenas quer dizer que as respostas que dei se enquadrariam nessa linha política ideológica, mas obviamente não diz que só voto na esquerda (se é que há neste país).

Prefiro crer que isso é um termômetro, que posso ou não considerar o resultado febril, e buscar outras idéias pra eu pensar como eu quero.

No meu caso, confesso que isso está numa direção que quero: nesse país não há reforma possível que não se dê pela instalação do novo, que não vai se dar por armas em punho, e que uma solução niilista é insatisfatória. E graficamente também vai na direção desejada, que um dia, se Deus quiser, eu chego lá: não estar em nenhuma posição no gráfico. A intenção não é o emcimadomurismo; ouço a todos os lados, mas dei adeus a ambos; o totalitarismo e a tirania são piadas de mau gosto, a monarquia é piada sem graça, o parlamentarismo é um jogral bocó. Nada de ser politicamente Arturvirgiliano (cito a recente questão da aprovação da CPMF). Amo a liberdade, mas quem diz não ter momentos autoritários, convenhamos, não se enxerga. g

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Espécie parasita

Poucos parecem saber e muitos evitam dizer, mas grande parte da esfera intelectual brasileira é somente uma espécie de parasita dos acontecimentos da nação. Parasitam a nação e o povo. Podem aparentar ser de esquerda, de direita, ter ares artísticos ou de benemerente público, de manifestante da verdade que, supõe a estirpe parasita, todos os demais são incapazes de ver, e não vai muito mais longe do que isso.

Os parasitas produzem um caldinho cretino (particular aos indivíduos da raça), a secreção da contrariedade, para que possam ser distinguidos também de seus congêneres e de quem ou o que parasitam. A espécie é ágil, ou com os dedos ou com a fala. São ações nunca impelidas pelo que é colhido em seu entorno ou processadas interiormente, mas pelo que se origina em seus ventres: enquanto seu combustível brotar dali, dedos e boca nunca atrofiarão, e consequentemente, enquanto houver parasitados potenciais, a perpetuação da espécie estará garantida.

Curioso tem sido observar que as criaturas, graças às novas possibilidades tecnológicas, têm feito uso tanto dos dedos como da boca. Isso, em quem observava com plena consciência o parasita e via apenas uma das capacidades em ação, causava o efeito de repulsa no observador; agora o efeito evoluiu e quem observa sente uma profunda ojeriza acompanhada de ânsia de vômito. Nos parasitados, o efeito aparentemente é banal, mas percebe-se mais atentamente que as ações dáctil e oral do parasita, simultaneamente, provocam uma legitimação maior de seus propósitos.

Os propósitos e a anteriormente citada motivação das ações da espécie parasitária, é bom notar, procedem de uma mesma fonte: uma profunda ânsia de reconhecimento público de suas próprias teorias, que se assemelha a uma fome irrefreável. Isso, em outras épocas, levava o parasita a se auto-destruir ou ser deixado a mingua pelos parasitados, talvez pela forte impressão do ridículo que as criaturazinhas emanavam.

Há muito também se sabe que a espécie em questão não vive apenas para manter a si mesma. Vive também para manter um sistema em que outras espécies que nasceram em meio à abastança, que estas dizem não importar muito de onde vem (o importante é que está com elas há gerações), não tenha sua riqueza decrescida, nem compartilhada com outros. No Brasil é um ecossistema presente em diversas regiões do país, que até mesmo supostos detratores dele o nutrem. Como vez ou outra esse sistema deixa transparecer seus limites e operações, o parasita, por oportunismo, ao usar isso para sua sobrevivência, contribui para a longevidade do ecossistema.

As constatações aqui citadas podem ser observadas nessa gravação que obtivemos: http://veja.abril.uol.com.br/idade/podcasts/mainardi/audios/260907.mp3 (sujeito a náuseas).

Imagens do espécime parasitário observado também foram obtidas http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM751805-7822-DIOGO+MAINARDI+EXPLICA+O+TITULO+DO+LIVRO+LULA+E+MINHA+ANTA,00.html & http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM751801-7822-JORNALISTA+DIOGO+MAINARDI+LANCA+LIVRO,00.html : Muito interessante o fato de a olho nu, em vídeo e fotografia, o animal simular o mesmo tamanho que suas presas quando diante delas. Não se sabe ao certo se é mimetismo, toxinas lançadas no ar com o efeito de iludir ou feromônios dispersos no ambiente (a presa levanta essa possibilidade). Fato é que observado via microscópio e devidamente trajado, o observador contempla a verdade sobre o parasita: tamanho mínimo face o ambiente, o ecossistema e os parasitados.

Por conta das mudanças na relação parasita-parasitado, hoje em dia é corrente a voz de alguns que entendem ser necessário o extermínio dos parasitas, em alguns casos até mesmo dos parasitados, como única solução possível. O extermínio nunca é uma solução, mas nesse caso tem sido cada vez mais difícil desqualificar as argumentações dos partidários à erradicação do parasita.

No futuro os parasitas também podem incitar indiretamente a erradicação da liberdade de opinião de outros seres-vivos. g

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Mil tretas - Roda Viva x Mano Brown (24/07/2007 - 22h40)


Roda, pião

Decepção de pessoas diante da entrevista que Mano Brown deu no Roda Viva (TV Cultura, às segundas-feiras, às 22h40): os donos da mesma se iludiram com ou superestimaram o artista, que alguns também já passam a subestimar – e se alinham a desafetos que subestimavam o rapper há muito.

Esperavam os entrevistadores e muitos espectadores um messias das massas, um ativista, porta-estandarte de bandeira política, renovador das ideologias emanado no povo, um gênio a aflorar na pasmaceira intelectual nacional, um brilhante artista que se não tiver justificativa não merece a alcunha.

Mano Brown não enganou ninguém que não se predispunha a crer, mas depois do Roda é ainda mais cabide para a frustradora auto-ilusão (que injeta esperança) da cultaiada, da imprensa e dos cabeças.

Pra massa de moletom Mano Brown é um guerreiro, de boné, que dispara a munição entalada na garganta do urbano que se julga ser o tártaro logo ali. É a expressão do desagradável a que o povão se adaptou, e olha, no fundo já não acha tão ruim assim. É o “Não enche o saco”. É aquilo que você teme e te sobreveio (Uga-buga!) – explicações parciais; o negócio é andar ombro a ombro com o cara, como ele mesmo disse que procura fazer (junto do KL Jay, do Edy Rock e do Ice Blue) no que destina a quem se propõe a ouvir.

“Como pode um sujeito desses, um, um... artista, então, ser normal; tem só a 8ª série e não foi além por não gostar (também, num país em que o Lula é presidente...) não gosta de ler a imprensa brasileira, mas leu Malcolm X e a bíblia, como é possível chamá-lo de gênio?”.

Nesse Brasil de hoje, em que se habita cheio de náuseas, não se é alguém com permissão pra se ter notoriedade se estiver sem causa, sem miolos, sem opiniões escoradas em filosofias estimadas (Veja, Carta Capital, Piauí ou Caros Amigos também vão servir), sem estar disposto a fazer pelo social quando tiver fama e sem querer bem ao Caetano. Não se pode ser contrário a quem vem alcançando êxito por luta (ainda que a liberdade permita ser contra o que se queira), não se pode ser brasileiro sem gostar de feijoada e carnaval, não se pode não ser de esquerda/direita/centro, corintiano não pode gostar de verde, não se emite a voz de Deus sem que ela simultaneamente seja a voz do povo, não se pode achar celular dispensável, não se pode ser esquivo (entenda: entrevista DEVE ser como tribunal, nessa terra), não se constrói imagem que a opinião pública vá descobrir depois que não é nada (embora todo mundo saiba que imagem é coisa ridícula). Renunciar é proibido. É preciso ter parâmetros para que se possa ser analisado, senão você é só um ente sabe-se lá de onde.

Se percebem que você não tem conteúdo que cesse a sede de irrelevância entre eles, então você não tem nada, e por isso não é nada, e por trás do que diz não tem nada que valha uma tampinha de tubaína. Motivação e subjetivação não é nada, a não ser quando o priorado ou seus pimpolhos estão no divã; é imperdoável ir contra isso.

Tinha e tem muita gente, agora rejubilante, querendo enterrar o Racionais MCs. Tomara que eles tenham conseguido só derreter a imagem que estes artistas sempre sustentaram (e se desvencilhem dela de uma vez) e pensaram bastar, e que não, não contaminava integralmente a sua obra, que tem sim seu valor. Agora é a oportunidade deles conceberem o plano final pra calar a boca de quem regula julgamento sobre caráter baseado no próprio bom gosto.

Das letras dos Racionais MCs, Mano Brown disse que não são feitas pra significar, são só rima (muitos gente espantada, na hora da declaração). Agora isso escandaliza? No rol da arte de que eles foram privados (e por isso foram desenhando uma cultura própria, não há como negar), isso é uma espécie de norma, embora ali mesmo muito da arte no contemporâneo privilegie o realismo e o retrato puro e sem significado (e com falsa responsabilidade). Então por que ninguém parou e foi atrás antes do significado nas músicas, especialmente a imprensa, a crítica, os prêmios e aqueles com mais acesso à cultura, que sempre lhes deram alvíssaras? Quer dizer que no caso dos Racionais MCs o retrato da realidade agora é completamente despreendido de significado, mas noutras expressões artísiticas convenientes não?

Caiu a máscara? Isso não deixa seqüelas. Não se pode dizer que os Racionais MCs também não estivessem pedindo por isso. Há que se torcer que isso os aprimore e não os ensoberbeça, que não os façam se auto-impor uma segregação, um eterno reduto no “já era”, pois o talento é patente, não vê quem não quer (e quem acha que eles infectaram toda uma geração duma classe). Mas que há muitas arestas pra aparar, há. Será ótimo se isso ainda puder aprimorar o público fiel – que a essa hora vai precisar separar bem as coisas.

Corre, cotia

No entanto, a máscara da imprensa e dos intelectuais da nação não cai . Os entrevistadores no programa, os detenteores do conhecimento social, a TV pública e a imprensa, foram mesmo anêmicos no momento. É possível contar uma piada de baixo calão sem graça com delicadeza? Pois não foi muito mais que isso. Todo mundo estranhava, menos a Roda. Talvez seja mais um sinal do apocalipse jornalístico brasileiro, em que a Veja se ergue como Babilônia – que venha logo o novo céu e nova terra da imprensa.

A mesma imprensa e os mesmo intelectuais que só fizeram coro, indicando um ímpeto mocorongo, quando religião pintou na Roda (ponho um certo sentido chulo, aí). O motim de particularidades, na verdade, foi desrespeitoso com entrevistado (que freqüenta cultos cristãos-evangélicos) e espectadores; purularam conceituações e sugestionamentos ridículos de que nem catedráticos estavam imunes: Preto fica feio fora de religiões, preto não é tão livre pra mudar de credo, religião de pobre é a afro, que evangélicos são impositivos (talvez uma certeza extraída de pesquisa secreta minuciosa com 18% da população brasileira, evangélica, justificasse tais preconceito e contrariedade – mais uma amostra de que essa parcela da nação ainda contínua uma incógnita para artes, intelectuais e formadores de opinião), que o candomblé é a religião mais livre. Belo festival de leviandades.

Houve ainda discussão sobre equívocos como sendo fatos, perguntas picarescas, sub-aproveitamento do entrevistado, e bem, não vale à pena prolongar. Resumindo: uma das piores entrevistas de um dos melhores programas da TV brasileira em uma das mais valiosas oportunidades. O melhor: a alma do Mano Brown. Pra ter noção do que eu disse aqui e mais detalhes do que houve na segunda, veja http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo (comece por “Espetáculo grotesco na TV Cultura”), por quem pensa estar por cima da carne seca, Reinaldo Azevedo - um jornalista (da Veja). Triagem será necessária.

Na casa do carvalho

O que deveria enojar mais ainda é a normalidade com que muita gente enxerga o título do dia seguinte: “Em entrevista no Roda Viva, Mano Brown é só um mano a mais” (http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art56602,0.htm) – não, pobre não é tudo igual, o MC não é só mais um, mas há certo padrão na visão da cambada que detém algum poderzinho. Sr. Pedro Paulo Soares Pereira, o sangue que eles gostam é o que a bandidagem verte na TV, as informações que eles gostam é a que rende o que não assumem ser irmã da fofoca. Os mesmos dizendo que o povinho que aparece ali na TV deve ser meio fedido. g

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Novos vícios - Frets on Fire



A música é uma coisa que desde a antiguidade arrebata emoções, e sempre os especialistas nela é que foram, são e serão os arquitetos deste arrebatamento. Os especialistas variam: pessoas, a natureza, o acaso, o raio que parta. Os meios que eles usam são físicos, ambientais, irreconhecíveis, o escambau a quatro – e a tecnologia: que não ficou restrita a música digital, mas embarcou no campo do entretenimento digital, cheio de carga da anterior, e desaguou nos videogames. O resultado no presente da internet (se é que temporalidade serve como adjetivação) é um joguinho mucho do legal (também por ser de graça), o “Frets on fire”. Guitar Hero é legal, mas é pago e é restrito pra conseguir música, se for considerar a infinita vantagem que o primeiro possui nisso.

O negócio é o seguinte: faça o download no link (
http://www.filefactory.com/file/7d8e6a ), descompacte (está em RAR), vá na pasta e execute o jogo no ícone do “F” em chamas (não precisa instalar), configure (tudo simples, não precisa ser cientista da computação – dá pra colocar em português tupiniquim), depois prepare-se pra abandonar a babaquice do air guitar. Ah, e dá pra baixar mais músicas fuçando por aí; pra começar: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=31079387.

Enstrossões de jioghu: primeiro tire seu teclado da mesa, aí levante ele e bote as teclas contra seu monitor (não precisa encostar na tela, júme); agora, traga ele junto de seu peito ou pança, como preferir; repare que no teclado a tecla da barra de espaço aponta pra seu queixo e a tecla F5 para seu pinto/perereca. Então, como se o teclado fosse uma guitarra você usa os dedos da mão esquerda sobre as teclas F1, F2, F3, F4, F5 e algum dedo da mão direita pra pressionar a tecla Enter (que eu sugiro mudar para a Ctrl do lado direito) como se fosse as palhetadas (não sabe o que é isso? Já ouviu falar de rock’n roll?). Se tiver problemas com a explicação, veja o link e não encha o saco:
http://www.youtube.com/watch?v=50XAHx2sPYQ

Taquei também umas músicas que não há na versão (coisas finíssimas). Agora deixa eu jogar pra dar uma relaxada e dar um pé na impaciência.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Trailer - "Encarnação do Demônio (The Embodiment of Evil)"

Lançamento em Março de 2008, da madrugada de sexta para sábado, dia 13 (aniversário de José Mojica Marins).

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Uns mimos - Lote 0001


Série de GIFFs animados, pra você ficar com cara de tonto olhando em seu monitor uma figurazinha divertida se mexendo, ou pra usar onde bem entender.
É só fazer o download do link:

http://www.4shared.com/file/22538204/527047da/Lote1.html


E depois de vê-los, diga se não são umas gracinhas.
Logo tem mais.
g

quinta-feira, 26 de julho de 2007

CHEAP TRICK - Surrender

É o que eu sempre digo: We’re all alright, we’re all alright.

Mother told me, yes she told me | I'd meet girls like you | She also told me stay away | You'll never know what you'll catch | Just the other day I heard | Of a soldier's falling off | Some Indonesian junk | That's going 'round || [Chorus: Mommy's allright, Daddy's allright | They just seem a little weird | Surrender, surrender | But don't give yourself away] || Father says your mother's right | She's really up on things | Before we married Mommy served | On the WACs in the Philippines | Now I had heard the WACs recruited | Old maids for the war | But Mommy isn't one of those | I've known her all these years | [Chorus] | Whatever happened to all this season's | Losers of the year | Every time I got to thinking | Where'd they disappear | Then I woke up, Mom and Dad | Are rolling on the couch | Rolling numbers, rock and rolling | Got my Kiss records out [Chorus] Awaaaayyy, Awaaaayyy... | We’re all alright, we’re all alright… |.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

O assessor especial da Presidência da República Federativa do Brasil

O assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, sob pressão do Jornal Nacional e dos políticos brasileiros, acaba de pedir desculpas a nação brasileira por peidar em seu gabinete.

A câmera, que outro dia, durante a sua espionagem, sozinha, flagrou o assessor gesticulando por causa do acidente do avião, não quis se pronunciar a respeito. Alguns cogitaram ser o luto oficial.g

"Cromossomo 3 - Os filhos do medo (The Brood ou Cromossome 3)" - 1979 - DIR: David Cronenberg

Frank Carveth (Art Hindle) não é o tipo de protagonista que está à espera do tradicional obstáculo de roteiro que vai proporcionar conflito e fazer a trama deslanchar. Ele não está levando a vida em linha reta em seu rumo até que uma vaca morta na estrada o force a desviar. As possibilidades de conflito para o personagem parecem estar em todo lugar, se oferecendo pra serem usadas. Frank está pleno de problemas que vêm de seu casamento dissolvido com Nola (Samantha Eggar). Mas a coisa vai além do desarranjo familiar. Sua ex-esposa vive em uma clínica psiquiátrica em tratamento intensivo sob os cuidados do Dr. Hal Raglan (Oliver Reed), que criou uma inovadora cura dos males da psique, o Psicoplasma, que consiste em fazer os pacientes manifestar sua ira mais profunda em resultados físicos, quase sempre como marcas relacionadas com dor (feridas, hematomas, escoriações, etc.). A avó materna de Nola (Juliana Kelly, interpretada por Nuala Fitzgerald), por causa de divórcio, também tem seus problemas afetivos e isso vem sinalizar para Frank o que pode ser dele daqui a alguns anos. O avô materno (Barton Kelly, interpretado por Henry Backman) estende a possível mazela futura de Frank para o vício que consola em vão, e por isso os laços com o passado estarão mais intensos e doloridos. Como se não bastasse os sinais de um futuro nada promissor no campo afetivo, a vida amorosa de Frank está em frangalhos, a ponto de afastar qualquer outra pessoa que porventura queira estabelecer laços amorosos; sinais de um futuro péssimo desde o presente, e não só no porvir. E a filha, Candice (Cindy Hinds), vem manifestando um comportamento alimentado pela conjuntura familiar.

Momentos em que o acúmulo de variados problemas força o rearranjo de tudo, nada semelhante à trajetória de vida tranqüila em que de repente surge um foco de sofrimento; doença grave num membro da família, por exemplo. É mais como se cada setor da vida do indivíduo, a partir de cada fundamento, viessem se rearranjando todos ao mesmo tempo. Mudança assim, em coisas pelas quais se tem afeto, geralmente resulta em sofrimento. E quando todas as partes do todo parece se rebelar contra as coisas e estados que estimamos, um sofrimento de maiores proporções se configura num dos piores temores que considerávamos possíveis, pois não afeta apenas o indivíduo, mas todo um sistema em que o indivíduo está ligado a outros por amor.

Na situação em que os focos de sofrimento são multiplicados, algumas pessoas se desesperam, angustiam-se, entram em depressão, enlouquecem, optam pelo suicídio; outras assimilam as situações ao invés de entregarem-se aos sentimentos e desejos (elas possuem os mesmo anseios, mas parecem preferir entregar-se ao infortúnio). Masoquismo? Estoicismo? Resignação forçada, comum aos miseráveis? Não é pra tanto. Em meio ao sofrimento múltiplo, esse tipo de pessoa faz o que está a seu alcance em relação a um setor específico, os outros, sinto muito, ficam de molho – se pagar a conta de luz, não se paga a de água; mas a de água demora mais pra cortar, então pago a de luz.

Outro matiz dos que estão imersos no sofrimento é em dado momento optar por agir em favor de quem/o quê se ama muito, como se o sofrimento tivesse livrado da supervalorização certas coisas a que ela estava arraigada. São pessoas e necessidades que passam a merecer um esforço a mais do que já se faz pra se ficar de pé em meio a esse tudo. Coisas únicas que agora parecem ter valor são aquelas dignas do amor mais puro, purificado pelo sofrimento, por assim dizer, amor que faz parecer o destino dele algo mais nítido do que antes. E é acontecimento dessa ordem que é o rompante da trama em "Os filhos do medo (The Brood - 1979 - Dir: David Cronenberg)": o conflito do personagem Frank parte do esforço extra que o afeto requer para aquilo que detém importância maior dentre todos os demais – a filha de Frank, Candice, depois de uma visita à mãe na clínica, volta pra casa com machucados nas costas.

Vestígios de violência, de acidente, da insanidade materna, vestígios de experiências psico-traumáticas? Cronenberg opta por se dedicar aos vestígios dos outros membros do debilitado sistema familiar Carveth/Kelly antes de fornecer a resposta, como se a filha, ela mesma um vestígio dos pais, precisasse ser amadurecido antes da eclosão de sua dor.

Se Frank rejeita num primeiro momento sua ex-esposa Nola como vestígio seu (aparentemente muito decididamente, de modo a eliminar um sofrimento desnecessário), o mesmo não se dá com os pais dela. Juliana e Barton são vestígios um do outro e possuem vestígios um do outro. Os vestígios que ambos detém são a má resolução do convívio amoroso e com o tempo imprimiram marcas mais profundas. Em Juliana a dor dos indícios estava manifesta o tempo todo, internamente, mas tão presente que é evidente no exterior. Em Barton eles estavam incubados, mas vieram à tona quando ele percebe que seu vestígio ficará sem solução, quando a perda definiu que será assim (vestígio sem origem, sem motivo, gera incerteza, o que incrementa a dor). Ambos encaram suas marcas de modo oposto a Frank. Eles são o que seria de Frank no futuro, caso tivesse sustentado sua relação com Nola por mais tempo.

Nola Carveth não faz a contenção de sua ira como Frank faz com a sua (ira que no filme sempre produz os resultados mais bizarros, deformados e deformadores, e tem muita importância no desenvolvimento do filme). As relações que ela mantém com os vestígios diante de si são todas desequilibradas, ela rejeita a natureza deles, como na cena em que lambe o produto de si mesma animalescamente (tratamento que não é dado nem a um objeto, nem a algo dotado de vida humana). Nola, como muito dos demais personagens do filme, tem traços do momento da vida de Cronenberg que corresponde ao período da roteirização do filme, que se deu durante o complicado divórcio de sua esposa na época; ele teria dito que Nola possuía algumas características de sua esposa, como muito do que há no filme expressa os temores e desejos de Cronenberg no momento.

Como o próprio Cronenberg mais tarde disse em entrevista a Serge Grunberg, para a revista Cahiers du cinema, ele não tinha a intenção de dar traços autobiográficos ao filme. O que havia em si era uma necessidade de escrever antes de descansar de todo o tumulto das questões de separação e custódia, a estória tinha de ser escrita de uma vez, logo. A obra que surgiu é a que mais possui material extraído da vida do realizador. Um filme escrito e realizado privilegiando a dimensão fantástica e a invenção e que foi motivado por uma espécie de compulsão nunca sentida antes, segundo Cronenberg, espécie de expurgo dos períodos mais complicados da vida do cineasta.

Há ainda os vestígios dos outros personagens que não se envolvem intimamente com o sistema principal do filme – mas não deixam de participar intensamente dele, como se Cronenberg não deixasse ninguém sem sua marca, como se ninguém que tivesse o menor contato com a circunstância saísse ileso: o personagem que move o processo contra Raglan tem seus vestígios revoltando-se contra ele (são os laços afetivos construídos no passado que se manifestam posteriormente descontentes); a professora de Candice, que se enamora por Frank, não sabe lidar com os vestígios em Frank, se esquiva deles e teme os que estão em Nola (é a possibilidade de não haver novas relações amorosas no futuro, por causa da assombração pelo passado ou pelo que há do passado em Frank); ou o personagem insano, que ignora os vestígios e a dor advinda deles e doentiamente permuta a importância da dor pelo desejo de afeto (o temor de no futuro a ânsia por afeto se tornar uma obsessão pelos acontecimentos passados).

O Dr. Raglan é a frieza científica que facilmente manipula o pior numa situação para se alcançar a solução (ou para resultar em feridas que se justificam ao dizer que são percalços até a solução?); ele é o lado cruel humano que se manifesta em épocas difíceis ou não, que não hesita em colher benefícios em nome de suas prioridades, mesmo sabendo que isso pode causar feridas no outro, sobre a escusa da necessidade. Raglan de certo modo passa a ser também uma espécie de confirmação de que o filme não é a voz de quem pode mais, que vai nortear a opinião alheia a seu favor e satanizar o outro; ninguém está incólume de culpa, responsabilidade ou origem de dor, principalmente seu realizador.

Os derradeiros planos do filme, epílogo da trama, também é um diálogo que o filme faz com mais de um sentido em relação aos resultados do que se acabou de assistir, se assemelhando ao que era a circunstância do pai de Candice ao início do filme – era, porque ao fim já não sobra senão uma única coisa do passado que promete estar presente no futuro. O plano do braço da menina com as feridas em duplicidade, vem remeter a duas questões: a dor emocional da criança – como já indicado pelo psicólogo da polícia, coisas que se manifestam de um jeito ou outro caso não se assuma o que presenciou (um passado imediato, que já é o presente da personagem) – e uma herança materna que traz a semelhança da genetriz consigo – neste caso, do passado vem a possibilidade de ruína no futuro vislumbrada desde o presente (por isso o plano seguinte dos olhos da menina com sinais de choro, mas sem expressão que diga o porquê das lágrimas); nada de alívio, é a dor (e depois, talvez, loucura, e adiante, horror) que em alguém forçosamente seguirá para o futuro. É o fantástico terrível transcendendo os limites ficcionais entre espectador e filme, deixando vestígios na vida e indicando em si os que colheu dela. g

Nada de estrelas ou desenhinhos. Aprovação: 72,7%

Sugestão de link (em inglês): http://www.cinetudes.com/THE-BROOD-by-David-Cronenberg-Part-1-1979_a142.html
Ah, morreu o ACM.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Ira - "Invisível DJ"

Estava ouvindo os três primeiros discos do Ira! E dei uma passada no site deles pra ver se tinha algo do disco novo "Invisível DJ"; tinha o disco todo em razoável qualidade – quem destina os ouvidos exclusivamente aos mp3 talvez até espirre um “muito boa qualidade!” –, deu-se o acidente.

Olha, é e não é o Ira! de 1985/1986. O não ser todo mundo já deve saber, de tanto que a fãzada torceu o bedelho. O ser é que por mais que se discorde, o Ira! é uma das bandas rock-pop safra 80, que menos se descaracterizou no passar dos ânus. A banda quis apontar pra uma maturidade, trilhou um caminho de pedras, deixando cair nele aquela jovialidade que dava fôlego a tudo que fazia (e pra muitos isso custou os olhos-da-cara), ficando farto do Rock’n roll e buscando outras batidas.

De Mods caíram na MTV e deram uma contribuição extra para o mundo estar ainda mais evacuado do que precisa junto com outros músicos em versão acústica. Esse cruzamento Ira!-MTV não deixa de ser curioso também, pois faz lembrar de direções do rock dos anos 90 até hoje: quantas bandas de inclinação e trejeitos Mods surgiram depois deles, mas todas elas eram Mods na forma (Oasis e britpops) ou são Mods na Unique selling proposition (Strokes, Kaiser Chiefs). Bem, não dá pra esquecer dos EMOs, os Mods de hoje, com pouquíssima semelhança com o movimento que tinha The Who: os EMOs são Mods no credo.

Pra EMO o disco novo do Ira! pode soar como uma coisa de outro plano astral. Ainda existe boa guitarra (que não é crua, anda de mãos dadas com outras sonoridades, procura saídas simples, mas hoje pouco habituais, e é rock’n roll, e é legal – posso me arrepender disso depois) e boa cozinha no mundo pop-rock nacional. O Nazi é sempre o Nazi.

A faixa 1 pode surgir na novela um dia. Malhação, talvez. Tem gente que vai achar esquisita a 2, mas ela tem qualidade. No geral o CD inclina mais pro rock do que pro pop, faz lembrar de leve um U2 que não quer saber do altruísta-poeta, esbarra no canastrão (mas é pop, então pode), tem músicos bem mais competentes, letras melhores, e na musicalidade parece caber qualquer adendo, como Beatles (que quié isso memo?) e uns barulhinhos a mais vindo de outras épocas a mais.
Ah, e a faixa 11 “O candidato” parece protesto tipo Titãs, sem os adjetivos de baixo calão, mas com a guitarra do Scandurra: o instrumental parece justificar a entrada no disco, mas um tiquinho de bom senso estapeia dizendo que nem assim presta. O melhor do disco é que ele me provocou a vontade de ouvir pela 1.077ª o disco do senhor Michael James Ness (que também pode dizer “Nasci em 62” – do dia 3 de abril, em Machachuches), o “Sex, Love and Rock 'n' Roll”.

Pronto. Isso equivale a você me visitar com flores no hospital após a um acidente.

Acidente que leva pra hospital não acontece todos os dias, nem a toda hora, que isso fique bem claro. g

O site: http://grupoira.uol.com.br/novo/index.asp

sábado, 12 de maio de 2007

Ilíada+Simone Weil: a força e a violência no homem, e a graça

O verdadeiro herói, o verdadeiro tema, o centro da Ilíada é a força. A força empregada pelo homem, a força que escraviza o homem, a força diante da qual a carne do homem diminui. Nessa obra, em todos os momentos, o espírito humano aparece modificado por suas relações com a força, como que varrido, tornado cego, pela própria força que ele imaginou que poderia controlar, deformado pelo peso da força a qual ele se submete. (...)

Definir força – é aquele x que transforma qualquer um que se submete a ela em uma coisa. (...) Ela o transforma num cadáver. Alguém esteve aqui, e no minuto seguinte não há absolutamente ninguém. (...) Da primeira propriedade [da força] (a capacidade de transformar um ser humano numa coisa pelo simples método de matá-lo) brota outra..., a capacidade de transformar um ser humano numa coisa enquanto ele ainda está vivo. Ele está vivo, ele tem uma alma; e, ao mesmo tempo, ele é uma coisa... E no que diz respeito à alma, que casa extraordinária a força encontra nela! Quem pode dizer o quanto custa, a cada momento, acomodar-se a essa residência, contorcer-se e curvar-se, quanto dobrar-se e enrugar-se são necessários para isso? Ela não foi feita para morar dentro de uma coisa; se ela o faz, diante da pressão da necessidade, não há um único elemento de sua natureza que não seja violentado...

Talvez todos os homens, pelo simples fato de nascerem, destinam-se a sofrer violência; ainda assim, esta é uma verdade para a qual a circunstância fecha os olhos dos homens. (...) Eles têm em comum uma recusa em acreditar que ambos pertencem à mesma espécie: os fracos não vêem relação entre si mesmos e os fortes, e vice-versa. (...) [Os fortes], empunhando o poder, não suspeitam do fato que as conseqüências de seus feitos vão finalmente retornar a eles. (...) [Mas eventualmente isso acontece, e] nada, nenhum escudo, pode manter-se entre eles e as lágrimas.(...)

Assim, a violência oblitera qualquer um que sinta seu toque. Ela parece tão externa àquele que a emprega quanto ao que dela é vítima. E daí brota a idéia de um destino diante do qual tanto o executor quanto a vítima encontram-se igualmente inocentes. (...), irmãos na mesma miséria. (...)

Aqueles que crêem que o próprio Deus, desde que se tornou humano, não pôde manter a severidade de seu destino diante de seus olhos sem tremer de angústia, deveriam entender que as únicas pessoas que podem parecer que se elevam acima da miséria humana são aqueles que mascaram a severidade do destino de seus próprios olhos com a ajuda da ilusão, da embriaguez ou do fanatismo. Ninguém que não esteja protegido pela armadura de uma mentira pode sofrer a força sem ser atingido até a alma por ela. A graça pode prevenir que esse sopro nos corrompa, mas não pode prevenir a ferida.g


Simone Weil, "A Ilïada ou O poema da força". Escrito em 1939, a propósito da iminente guerra. Assinado com um anagrama, Émile Novis, porque um judeu não podia ser publicado.


Traduzido para o português por Ruy Gardnier, e publicado em:
http://www.contracampo.com.br/86/artgeometriadaforca.htm#1 , a partir de um artigo de Tag Gallagher, origninalmenete publicado em Cahiers du sud, XIX, 230, December 1940.
O artigo de Weil citado por Gallagher "A Ilïada ou O poema da força" está publicado na compilação Simone Weil: a condição operária e outros estudos sobre a opressão, organizada por Ecléa Bosi e editada pela editora Paz e Terra, Rio de Janeiro. A segunda edição é de 1996.